“A importância de ser mórmon”

04-11-2012 20:04

Como a confissão religiosa de Mitt Romney pode influenciar as eleições americanas

 

            Pela primeira vez na história, os americanos têm hipótese de eleger um mórmon para a Casa Branca. Este aspeto da candidatura de Mitt Romney continua a suscitar a curiosidade da imprensa. Este “fator mórmon” põe em evidência a complexidade das questões religiosas numa eleição onde, indevidamente, se tendem a dissociar as questões económicas e morais.

            Há algum tempo colocou-se a questão de a fé do candidato republicano poder incomodar os evangélicos conservadores [um dos pilares do eleitorado republicano] que encaram os mórmones, não como uma confissão cristã, mas como uma seita. Protestantes conservadores e católicos são capazes de reconhecer que partilham alguns valores com os mórmones: importância da família, liberalismo económico, redução do Estado federal ao mínimo, forte proteção internacional dos EUA. Por outras palavras, os evangélicos conservadores preferem votar em Romney sem muita convicção do que abster-se e contribuírem indiretamente para a reeleição de Obama que olham como se do anti-Cristo se tratasse.” (Courrier Internacional, novembro 2012, p. 34, Jornal Le Monde – Paris)

 

            Todo o texto é bastante interessante como análise sociológica do posicionamento dos evangélicos nos Estados Unidos face às eleições presidenciais.

            Evangélico, protestante, mórmon, católico, agnóstico ou ateu, não fará diferença de maior num Estado laico, em que as promessas eleitorais ficam a léguas de distância do que a seguir se concretiza. Claro que não deveria ser assim. O facto é que temos evangélicos tanto do lado republicano como do democrata, tanto dos conservadores como dos liberais, da direita e da esquerda. É também uma realidade que não temos desenvolvido no nosso meio um estudo rigoroso dos princípios bíblicos nesta dimensão nevrálgica da sociedade. Somos de opinião que na Bíblia não encontramos uma doutrina social, nem sequer é lícito retirar dela uma doutrina com essa feição, porque o evangelho não é nem pode ser reduzido a um programa político-partidário. O evangelho dirige-se à pessoa com um veredito que envolve a sua relação com Deus, a sua identidade espiritual, uma regeneração espiritual, um novo nascimento e uma nova filiação. Tudo o que escamoteie a essência do evangelho destrói o evangelho pela base. Sem o novo nascimento e a regeneração deixamos de ter evangelho.

            Ainda assim consideramos que existem princípios e valores na Bíblia que os políticos e os respetivos programas eleitorais deveriam ter em consideração e toda a sociedade beneficiaria com isso. Agora sempre me incomodou o facto de se considerar como parte da ética cristã uma oposição aberta ao aborto, à eutanásia, ao suicídio assistido, à legalização das drogas, à homossexualidade, à pedofilia, a uma liberdade de imprensa que fecha os olhos à pornografia, etc., mas que não tem a mesma veemência nas questões sociais, nas políticas de apoio aos desempregados, à assistência médica, aos imigrantes e emigrantes, ao racismo, aos sem-abrigo, etc. No meu entender um aspeto não pode ser dissociado do outro. Ambos pertencem à mesma dimensão da dignidade humana à luz da Bíblia.

            Consideramos ainda que não se pode impor por via legal um determinado comportamento e orientação sexual, mas para tanto não é necessário fazer aprovar o casamento homossexual como se efetivamente uma família pudesse ser dois homens ou duas mulheres. Por muita volta que se tente dar à questão, uma criança, cada um de nós, é sempre o resultado de um espermatozoide e um óvulo, e até ao presente isso implica géneros diferentes. Agora com a mesma convicção defendo que não é possível nem admissível que as pessoas sejam tratadas sem qualquer consideração, como se fossem descartáveis. Não posso admitir que um governo qualquer que seja fale dos desempregados como se fosse uma inevitabilidade, perante a qual o Estado cruza os braços considerando que não é problema seu. De modo nenhum. É um problema de todos nós. Há que encontrar soluções, alternativas, consensos de políticas que garantam os mínimos para uma vida digna no desemprego, na assistência médica, na educação – são funções do Estado que não se podem alienar. Não há refundação do Estado social ou revisitação das funções do Estado que possam diminuir estas responsabilidades. Somos pessoas, não somos bichos, muito menos máquinas ou objetos. Tudo o que seja menos do que isso é indigno de uma sociedade constituída por homens e mulheres criados à imagem e semelhança de Deus, todos sem exceção, mesmo que corrompidos pelo pecado original.

            Sinto-me ofendido quando ouço responsáveis religiosos que usam o nome de cristãos escamotear estas exigências e dar cobertura a uma Estado que se demite, sancionando uma democracia que ignora estas responsabilidades, que promete e não cumpre. Líderes que falam da rua e da indignação dos cidadãos com se se tratasse de uma ilegalidade. Quando os políticos falham é necessário denunciar na rua o que vai mal – é esse o princípio da liberdade de expressão que é indissociável da liberdade religiosa e de culto. Fico apreensivo quando certos posicionamentos das hierarquias religiosas que usam o nome de cristãs, parece que querem voltar à sopa dos pobres, e não lutam de forma pacífica chamando os governantes à sua responsabilidade política. Dirigentes que se mostram perturbados pelo apoio que o Estado dá a fundações não religiosas, e eles são dos que mais beneficiam desses subsídios. Gostaria de não voltar a um tempo de má memória. Não se trata de ser de esquerda ou de direita, mas de ser bíblico e a Bíblia não descura os princípios equitativos de todos aos recursos de um planeta que Deus criou para que todos, sem exceção, tenham o “pão nosso de cada dia”.

            Sem ter dados que me permitam fazer uma afirmação taxativa, tenho a impressão que esta situação marca uma linha divisória de fundo entre os países do norte e do sul na Europa. Mas o que me importa salientar é que os cidadãos devem-se mobilizar e daí congregar esforços para termos um Estado que garanta as condições essenciais para que todos sem exceção tenham uma vida digna. Um Estado que se demite, não é digno desse nome – no meu entender.

            Continue a pugnar por igrejas locais, por comunidades de seguidores de Jesus Cristo, que independentemente do que o Estado possa ou não fazer, não se demitem. Impressiona-me o que os discípulos comunicaram ao apóstolo Paulo quando se encontraram em Jerusalém e verificaram que o evangelho proclamado era o mesmo recebido no ministério terreno de Jesus e revelado sobrenaturalmente após a Sua ascensão. “(…) recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres” (Gálatas 2:10). Assim viviam as igrejas sob o Império romano, no primeiro século, chamada de igreja primitiva ou neotestamentária. “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Atos 2:42-47). Eles cuidavam uns dos outros. Sem uma movimentação política revolucionária, eles deram a volta a um império romano corrompido até ao tutano. Hoje precisamos de ter a mesma fibra, a mesma doutrina e a mesma prática.

            Não podemos deixar de lamentar profundamente que no caso americano, organizações evangélicas tenham alterado a designação de “seita” em relação ao mormonismo, depois do apoio declarado ao candidato Mitt Romeny que é mórmon, segundo fonte fidedigna da CPADnews: “No dia seguinte ao encontro, o site da Associação Evangelística Billy Graham retirou o termo “seita” do seu material que fala sobre o mormonismo, gerando diversas críticas. Ken Barun, que dirige a Associação explica a decisão. ‘Removemos esse termo porque não queremos participar de um debate teológico sobre algo que tem se tornado uma questão política constante durante esta campanha’.” (http://www.cpadnews.com.br/integra.php?s=12&i=14502 – 2012nov03) No nosso entender quando a política se infiltra no seio da igreja ou de organizações a ela associadas, é o evangelho que sai a perder e muito, onde quer que seja. A separação da Igreja do Estado é um bem precioso pelo qual a reforma nos seus desdobramentos posteriores acabou por defender e estabelecer e que convém não hipotecar. Individualmente apoiar um candidato que tenha uma determinada confissão religiosa ou não tenha nenhuma, em função do seu programa, é uma coisa, outra bem diferente é deixar que essa opção enfraqueça, dilua ou torne ambígua a posição pública sobre o facto de que ela não corresponde à formulação bíblica.

 

Samuel R. Pinheiro

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